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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ATAQUE DE 2005 MUDOU A MINHA VIDA.

Após os atentados de Londres. a identificação do Islâ com o terror generalizou-se, algo que os religiosos devem contestar.


* Por Zaiba Malik - Escritora.

Quando penso na 5ª feira do 7 de julho, há 5 anos, o que me vem a mente é o tumulto, o engarrafamento do trânsito, as sirenes, a rede de telefonia celular sobrecarregada em Londres. E lembro quando vi a foto de quatro homens na capa dos jornais com a manchete: "Homens-bomba nascidos aqui" e "Terroristas muçulmanos britânicos".

Um em particular, Shezad Tanweer, chamou minha atenção.

Em parte porque era mais jovem, menos duro que os outros três e também porque tinha nascido há algumas ruas de onde eu cresci, em Bradford.

Quando fixei meus olhos em Tanweer e nos outros, chorei, sabendo que, a partir de então, as coisas seriam muito diferentes pra nós, muçulmanos britânicos. E chorei também pelo passado, quando não havia extremistas nem islamofobia, tampouco guerra ao terror; quando simplesmente vivíamos nossa vida.

Minha educação não foi diferente de outras crianças nascidas em Bradford, filhas de imigrantes paquistaneses. Eu sabia que era muçulmana bem antes de saber que era britânica. As primeiras palavras que ouvi ao nascer foram pronunciadas pelo meu pai: "dou testemunhode que não existe outro Deus, a não ser Alá, e Maomé  é seu profeta", declaração de fé islâmica que foi sussurrada 3 vezes no meu ouvido direito. Depois foram as visitas habituais à mesquita e à madrassa, o mês do jejum, as lições do alcorão ao amanhecer e a frase constante da minha mãe: "Você é uma muçulmana." Ela dizia isso sempre que achava que a influência ocidental era excessiva em casa.

Você deve ter ouvido falar que o Islã é muito mais do que uma religião, é um estilo de vida. Existem inúmeras regras que devem ser obedecidas e eu me sentia feliz em cumpri-las. Desenvolvi uma espécie de doença compulsiva islâmica, fazendo minhas orações 40 vezes, em vez das 33 exigidas, e mantendo minha cabeça coberta como está escrito no livro sagrado. Cumprir esse ritual era o pequeno preço a pagar por minha recompensa na outra vida - a eternidade no Paraíso.


Em meus anos de adolescência as coisas mudaram. Aos poucos fui percebendo que vivia duas vidas incompatíveis - uma em casa, que se traduzia em cultos, no uso do véu e à obediência; e a outra na escola, que significava comer carne vermelha e namorados. Não consegui harmonizar os dois lados - muçulmano e britânico - e deixei de praticar a minha fé. O que eu queria era me integrar. Uma pesquisa recente mostrou que a maioria das pessoas na Grã-Bretanha relaciona o Islã com extremismo e terrorismo. Talvez depois dos atentados de 7 de julho e outros inúmeros complôs fracassados isso não seja surpresa. Ninguém sabe qual é o real nível de radicalização entre os muçulmanos britânicos.

O contraterrorismo tem sido amplamente criticado por se concentrar unicamente nos muçulmanos e ignorar a extrema direita e exacerbar uma visão já negativa dos muçulmanos. É difícil saber como resolver um problema se você não sabe qual é a sua causa. Mas o que precisamos realmente é que líderes religiosos islâmicos contestem abertamente essa visão distorcida da religião e o uso do Alcorão pelos extremistas.

(Fonte: Jornal THE GUARDIAN)






Há meses tenho esse texto pra publicar aqui no site e nunca o fazia, pelos mais variados motivos: Ou porque estava em algum estudo, ou porque estava num momento "relax" na net, depois de um longo estudo, ou porque a falta de tempo por dar atenção às entrevistas de outro site ou ainda atualizando os meus blogs, mas nunca sem esquecer desse texto da Zaiba Malik.

Não culpo apenas a intolerância religiosa pela ignorância geral com os muçulmanos e os povos árabes em geral - muito se deve ao fato das pessoas se trancarem nos seus "mundinhos pessoais perfeitos" e não ter o menor interesse na busca da informação imparcial. Não é novidade o fato de que a mídia é formadora de opinião, e AMBOS OS LADOS o fazem, "puxando a brasa para sua própria sardinha". A desinformação, aliada a um veiculo poderoso de lavagem cerebral como a imprensa, bem como o excesso de orgulho, são as fórmulas perfeitas para essa bomba chamada INTOLERÂNCIA.

Também culpo a desinformação cultural pela visão deturpada do mundo em relação ao Islã e aos povos do Extremo Oriente. Uma pessoa de meu convívio uma vez questionou o porquê esses povos não vivem suas vidinhas e dão o braço direito por uma guerra (entre si mesmos e com o resto do mundo "infiel", como eles classificam). Eu também questionava isso até começar a estudar a arte e cultura desses povos em função da dança... Fiz descobertas impressionantes! Tanto que muitas vezes é difícil convencer os ocidentais do quanto o povo muçulmano é pacífico! Os extremistas não podem ser visto como regra: eles são a EXCEÇÃO.

Não nos custa procurar enxergar com os olhos do outro, sob seu ponto de vista. Abrir a mente e o coração para uma cultura tão adversa da nossa é o que falta para um mundo mais coeso, onde deveria imperar a comunhão, fraternidade e amor, tão pregados por MAOMÉ, JESUS DE NAZARÉ, BUDA e tantos outros Avatares da concórdia e paz que nós, (in)humanos insistimos em não ouvir.


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