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domingo, 3 de outubro de 2010

RENASCER DAS PRÓPRIAS CINZAS...

Quem me conhece um pouco melhor sabe que o meu símbolo pessoal (e marca registrada) é a FÊNIX.

A Fênix é uma ave mitológica grega, que ao morrer entra em combustão, pra depois renascer das próprias cinzas. Acredita-se que essa lenda tenha sido inspirada por uma extinta ave egipcia, semelhante a uma garça, o BENNU, que seria o equivalente egipcio a Fênix, onde segundo a mitologia egipcia, ao cumprir o seu ciclo de vida, voava até Heliópolis e pousava na pira do Deus Rá, ateando fogo ao seu ninho e deixando-se consumir pelas chamas.

Lendas a parte, o fogo tanto pode ser sinônimo de destruição como de renovação. Nas queimadas por combustão espontânea, uma floresta inteira pode ser dizimada pelas chamas, para que na próxima temporada seja substituida por plantas inteiramente novas. É um dos processos de renovação da Mãe-Natureza. Temos também os relâmpagos (amo), que superaquecem o ar a sua volta promovendo a purificação dele, e também é um dos fatos geradores das queimadas naturais.

O fogo é um elemento purificador, renovador. Através da dor, ele traz um novo ciclo de vida e renascimento.

Minha vida sempre foi cheia de "altos e baixos", e depois de um certo tempo percebi que me levantava numa nova perspectiva a cada tombo, a cada "puxada de tapete" do destino. Por isso me identifiquei com esta ave mitologica... A necessidade clamante de liberdade representada pelas asas do pássaro em comunhão com a dor de uma ruptura de um ciclo e o renascimento a um novo, fez desse símbolo a mais perfeita expressão da minha vida como um todo.

Eu tenho ela tatuada na lateral do tórax, na altura das costelas, local onde mais dói se fazer uma tatuagem. Nunca vou me esquecer. A dor era como se eu estivesse fazendo o desenho a fogo mesmo! Quando vocês virem uma Fênix, lembrem-se dessa que vos escreve.

Escrevo-lhes hoje na expectativa de uma redenção: explico...

Já faz algum tempo que não publico estudos aqui no site. Primeiramente porque o estudo que quero empreender com vocês é algo que transcende as publicações que todos devem estar acostumados no que diz respeito a grandes bailarinas, e também um estudo que vai requerer bastante consulta e avaliação. Não é um mero COPY/PASTE da maioria dos blogs... no meu ponto de vista, é praticamente uma "tese", e como tal precisa ser avaliada antes de publicada como estudo.

O outro motivo de eu ter dado uma pausa nas publicações foi eu mesma. Pra quem não sabe, recentemente fui terminantemente proibida de dançar pelo meu médico. Motivo: Discopatias Degenerativas da Coluna Vertebral e Articulação dos Joelhos. Mal da idade e de "junta", rsrsrs... De início, acredito que movida pelos projetos em andamento e o tratamento desses males, a "ficha não caiu", por isso não senti o impacto dessa nova ordem da minha vida. Mas quando as "chamas" começaram a se intensificar, comecei a sentir o calor da queima, e doeu... doeu na alma da bailarina... a Haiyat estava entrando em combustão mais uma vez.


O problema é que dessa vez estava difícil de renascer das cinzas... cheguei a acreditar que elas seriam levadas pelo vento, uma vez que eu não estava encontrando forças e estímulo pra continuar tocando minha vida sob um novo prisma - o de pesquisadora, estudante e mera espectadora. De repente comecei a me sentir mutilada, faltando um pedaço enorme da minha essência!

Isso até hoje no início da manhã...

Depois de publicar a entrevista do meu professor e amigo VITOR CAZÉ, no blog da MÁFIA DA DANÇA DO VENTRE, comecei a dar uma "faxinada" na minha caixa de e-mails, quando me deparei com o e-mail de uma amiga que me fez refletir longos minutos sobre o que estava escrito e a mim mesma. Fala justamente nos conflitos interiores que muitas vezes passamos, e que nos desestimula a continuar com nossos projetos de vida, nossos sonhos. Vou repassar pra vocês essa mensagem:

Sem amor, não há movimento...


(foto: Samya-Ju  Blog: http://7vidasdebailarina.blogspot.com/)

"Chega um momento na nossa vida que fica tudo tão claro. O meu foi preciso. No exato momento em que parei de surtar (com um monte de tralhas incrivelmente sufocantes que me cobravam muita responsabilidade) eu nasci de novo.
Inclusive a dança nasceu de novo. "Dança do ventre" me diz pouco, não me provoca. Porque realmente o universo "bellydance" do qual fiz parte deixou de existir em mim. Assim eu danço, de verdade - com todo coração. Não posso dizer que isso é Dança do Ventre. Não consigo submeter essa dança à qualquer regra: aquelas que eu mesma criava para mim. Não consigo impor limites. Realmente não dá mais.
Confesso com gratidão que precisei ter tudo e perder tudo. Daí esse "tudo" fez sentido, afinal.
Sem amor não há movimento.
Desejo que vocês jamais provem isso na própria carne. Se houver outra maneira de valorizar o papel do amor na dança, compartilhem com o mundo.
Estarei com vocês.
  

(texto escrito pela Bailarina Samya-Ju,  em seu blog: http://7vidasdebailarina.blogspot.com/)




"As pessoas dançam por inúmeros motivos: expressão de sentimentos, autoconhecimento, autoafirmação, simplesmente porque acham lindo, para fazerem amigos, para relaxarem, ter um hobby, pelo bem estar que a dança proporciona, enfim, ficaria o dia todo inumerando motivos que levam as pessoas a dançar. Mas uma pergunta que sempre me vêm a mente é: o que leva uma pessoa a parar de dançar?  Ou mais ainda, o que leva uma pessoa a "desencantar-se" com a dança e sua prática?

De repente, aquela companheira de tantos anos - a dança - tanto suor e encantamento desaparecem simplesmente no ar... ou será que ficam lá em alguma janelinha da alma esperando um momento - que talvez nunca mais aconteça - para trazer a tona?

Já vivi muitas coisas dentro do estudo da Dança. Vontade de parar houve sim, mas tão inferior ao que ela representa em minha vida que não consegui me deixar levar totalmente por ela. Sempre que isso acontecia eu procurava refletir onde estava a falha... onde e como em algum lugar eu havia perdido aquela paixão, aquele encantamento. E tentava reencontrar aquela magia que eu vi quando comecei a dançar... buscava nas janelinhas de minha alma, cheiros, lembranças, sons que me remetessem àquilo tudo.  Lutei por longo período de idas e voltas, mas não me entreguei.  Eu sabia que ia descobrir onde estava o furo - se é que havia furo e onde estava eu mesma nesse processo. 

Aos poucos, tudo ficou muito simples e claro e percebi que há um sentido muito maior na Dança, o sentido que une as pessoas em circulos, seja dançando seja se apresentando... esse sentido preencheu minha alma de tanto significado que superava minhas expectativas... e mesmo dentro deste processo noto que, quando não há uma intencionalidade, uma consciência dentro do processo, o "vaso se esvazia" e a dança torna-se uma planta seca, um cadáver. A Arte não pode ser reduzida a um apanhado de regras. Ela tem que ir além, transcender a técnica. Ela tem que expressar o que sentimos acima de tudo. Mas ela tem que ter um significado profundo em si mesma. Esse significado tinha ficado em algum lugar. Mas por onde eu poderia começar a procurar? Pedindo pra São Longuinho?  Pode ser...  preferi começar pelo caminho mais lógico. É impressionante como as respostas estão bem na nossa frente e insistimos em procurá-las do outro lado. 

Voltei a estudar as bailarinas que fizeram a História da Dança Oriental. Voltei a ouvir as músicas que também tornaram-se arquétipos dentro da Dança Oriental.  Compreender de onde vem a dança, conectar-se com a energia ghawazee através das músicas e dos movimentos que trabalham o corpo de maneira mais profunda... dissolver couraças através de movimentos vigorosos e intensos. Sentir o simbolo em cada momento, em cada movimento, me permitiu sentir a força da Dança novamente. Mas o mais importante é , sem dúvidas, as pessoas que a dança traz pra vida da gente.

Fiquei muito feliz ao saber que minha amiga Samya conseguiu tambem preencher de significado e ir alem de padrões e modernismos para compreender a profundidade e significados da Dança e espero que todas as pessoas que leiam estas simples palavras sintam-se com o coração inundado por esse amor que move a Dança em todo mundo! Compartilho com vocês estas palavras e  rogo que consigam manter acesa a chama da magia em seus corações!

E se um dia a dança deixar de ser importante em suas vidas, desejo do fundo do coração que vocês não encarem isso com banalidade ou naturalidade. Mas procurem compreender os porquês disso tudo. E avaliem antes de simplesmente desistir de encontrar...

E agradeço a todos que não desistiram e estiveram ao meu lado nas idas e vindas! serei eternamente grata! e agradecerei da melhor maneira: dançando!"


Essa mensagem singela, mas de uma profundidade única em sentimentos, foi a força que fez a minha fênix renascer mais uma vez. Num momento onde eu achei que me faltariam as forças e estímulo pra seguir adiante sob uma nova proposta de trabalho, eis que surgem as forças misteriosas do alto me empurrando a frente, porque afinal de contas, THE SHOW MUST GO ON.


Bennu, em afresco

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