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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ISLÃ - Arte e Civilização

Olá Pessoal!

Estive recentemente na belíssima exposição ISLÃ - ARTE E CIVILIZAÇÃO, que aborda o Islamismo sob a ótica de POVO, CULTURA, ARTE, e não sob o aspecto violência, terrorismo, extremismo. A exposição trouxe um acervo lindíssimo: partes de mesquitas e palácios, cerâmicas, joias, mecanismos tecnicos e escritos científicos... O que mais me emocionou foi a forma delicada com que a exposição foi disposta, e iniciativas como a do CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL é uma candeia nos ventos desérticos da imagem pré-concebida de horror e grupos extremistas religiosos, inseminada pela mídia ocidental, como se os povos árabes fossem feitos só de terrorismo, sem uma identidade cultural.

A civilização árabe-islâmica contribuiu de uma forma relevante para a arte universal. Fruto do processo de fusão e reelaboração do legado de diferentes culturas, a arte islâmica definiu, ao longo dos séculos, uma personalidade própria unindo beleza e praticidade, padrões abstratos e estilizações.

Do Atlântico ao Índico, a presença muçulmana congrega saberes e culturas que revelam expressões artísticas diversas. Amálgama de tradições mediadas por preceitos advindos da revelação corânica, a arte islâmica não se restringe a objetos diretamente vinculados a questões religiosas; transita entre o espaço do cotidiano e do sagrado.

No Islã, Deus é Único, mas sua criação é múltipla. Tal multiplicidade, ordenada conforme leis que desvendam o Criador, reflete-se nos arabescos, nas composições geométricas e em sua miríades de formas. Trata-se da multiplicidade com base na unidade.

Base de Prato de Cerâmica com a inscrição "ano quarenta e quatro
Múltiplas ainda são as identidades muçulmanas e as linguagens  desenvolvidas desde o século VII, marcadas pela representação abstrata e estilização. Cerâmica, ourivesaria, arquitetura e caligrafia - arte islâmica por excelência - expressam uma percepção que mescla a unidade de Deus e a inexistência de intermediários na relação com o divino.

Variadas em suas expressões geográficas e históricas, as estéticas islâmicas apresentam certos traços homogêneos: a predominância da caligrafia, a ornamentação que privilegia a epigrafia, os elementos geométricos e vegetais estilizados e a música baseada em um sistema modal.

A evolução da caligrafia é um dos fenômenos mais fascinantes da história do Islã. Árabes e Muçulmanos em geral contribuiram para seu desenvolvimento na criação de letras e estilos. O vínculo com o divino já se prediz na raiz da palavra Islã (s-l-m), que originou muçulmano (muslim, "aquele que se submete a Deus") e paz (salám). Como celebra a saudação tradicional muçulmana aos visitantes: ASSALÁMU ALÊYKUM! Que a paz esteja convosco!

Com a palavra Islã designa-se uma cutura, um modo de vida, uma religião. A civilização muçulmana é o resultado da fusão, feita pelos árabes, da herança da antiguidade clássica com o legado de outras civilizações - indiana, persa, chinesa - com as quais eles tomaram contato através de suas conquistas, modelando-se a partir de seus valores. Esse processo de amálgama cultural continuou durante séculos, levado adiante já não só pelos árabes, mas também, pelos povos por eles conquistados e islamizados.

Interior da Mesquita dos Omíadas, Damasco, Siria
No decorrer dessa longa história, iniciada no século VII, tendências artísticas muito diversas apareceram na enorme extensão do mundo muçulmano, não permitindo apresentar as formas artísticas do Islã como uma unidade homogênea. Porém, princípios estabelecidos pelo Corão podem ser considerados pautas e fontes de conhecimento dessa arte, traduzida na decoração de objetos da vida cotidiana, na arquitetura e na caligrafia, essa última, uma forma de arte bastante própria dessa cultura. Uma unanimidade, porém, é a primazia da mesquita no contexto urbano das cidades aonde o islamismo chegou. Identificada exteriormente pelo minarete (torre) e a cúpula, e no seu interior pelo pátio, o minbar (púlpito) e o Mihrab (nicho que orienta o sentido das preces, sempre em direção a Meca), a mesquita também se destaca por sua profusão ornamental. Sua decoração com mosaicos e arabescos, prioriza o uso de formas geométricas e vegetais.

Pág do Sagrado Corão em pele de gazela (Surata de Maria)
Apesar de não existir no Corão uma proibição explicita quanto ao uso e representação de seres  vivos, na prática prevaleceu uma postura pouco favorável a esse tipo de decoração religiosa tão comum em todo o Mediterrâneo, no Irã, na India e no interior da Ásia. A impossibilidade de captar a fé com imagens, a concepção de que não existem mediadores entre o ser humano e o Sobrenatural e o temor de, com a representação, desafiar a Criação divina, são critérios que inibem um tipo de arte enquanto favorecem outros.

No Islã, a caligrafia é a forma artística previlegiada. Por veicular a mensagem religiosa e satisfazer necessidades estéticas, os diversos estilos caligráficos podem ser aplicados na decoração de edificações assim como objetos de uso cotidiano. A estilização das formas da natureza, aliada à busca da perfeição como modo de se aproximar de Deus, conduz a elaboração de padrões geometricos abstratos que se tornam elementos recorrentes na ornamentação. Porém, o contexto proibitivo com relação às imagens não foi um consenso: o Islã conta entre suas manifestações artísticas com iluminuras que ilustram diversos episódios da história e da literatura da época e que foram muito populares em algumas regiões.

Tapete de oração em Tabriz. (Séc. XVII)
Fragmentos de arquitetura, manuscritos, iluminuras, peças de ourivesaria, cerâmicas, mosaicos, mobiliário, tapeçarias, vestuário, armas, entre outras preciosidades são elementos inseridos na arte e na cultura dos povos árabes. Virar as costas a esse fato relevante é abdicar da razão em prol da loucura da guerra urbana que tem o objetivo pura e simplesmente de polemizar e vender notícia. Dentre o muito que esse povo e essa cultura tem a nos ensinar estão também instrumentos científicos que revelam o grau de desenvolvimento atingido nas áreas da matemática e da astronomia, estimuladas por um contexto no qual a procura do conhecimento é um princípio fundamental da religião.

Além de uma mostra de arte, essa exposição nos aproxima dos valores culturais de uma civilização da qual também somos herdeiros.




FONTE: Athayde, Rodolfo de
Daniel Farah, Paulo (P.hD)

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