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DANÇA DO VENTRE

Dançarina do século 19.
Frederic Goupil Fesquet (1806-1893)
A dança do ventre é uma famosa dança praticada originalmente em diversas regiões do Oriente Médio e da Ásia Meridional. De origem primitiva e nebulosa, datada entre 7000 e 5000 a.C, seus movimentos aliados a música e sinuosidade semelhente a uma serpente foram registrados no Antigo Egito, Babilônia, Mesopotâmia, Índia, Pérsia e Grécia, e tinham como objetivo preparar a mulher através de ritos religiosos dedicados a deusas para se tornarem mães. Com a invasão dos árabes, a dança foi propagada por todo o mundo. A expressão dança do ventre surgiu na França, em 1893. No Oriente é conhecida pelo nome em árabe raqṣ sharqī (رقص شرقي, literalmente "dança oriental"), ou raqs baladi (رقص بلدي, literalmente "dança do país", e, por extensão, "dança popular"), ou pelo termo turco çiftetelli (ou τσιφτετέλι, em grego).


É composta por uma série de movimentos vibrações, impacto, ondulações e rotações que envolvem o corpo como um todo. Na atualidade ganhou aspectos sensuais exóticos, sendo excluída de alguns países árabes de atitude conservadora.


Origens
A origem é controversa. É comum atribuir a origem a rituais oferecidos em templos dedicados à deusa Ísis, em agradecimento à fertilidade feminina e às cheias do rio Nilo, as quais representavam fartura de alimentos para a região; embora a Egiptologia afirme que não há registros desta modalidade de dança nos papiros - as danças egípcias possuíam natureza acrobática.

É possível que alguns dos movimentos, como as ondulações abdominais, já fossem conhecidos no Antigo Egito, com o objetivo de ensinar às mulheres os movimentos de contração do parto. Com o tempo, foi incorporada ao folclore árabe durante a invasão moura no país, na Idade Média. Não há, contudo, registros em abundância da evolução na Antiguidade.


Por possuir elementos corporais e sexuais femininos, acredita-se que sua origem remonta ao Período Matriarcal, desde o Neolítico, cujos movimentos revelam sensualidade, de modo que a forma primitiva era considerada um ritual sagrado. A origem está relacionada aos cultos primitivos da Deusa Mãe, Grande Deusa ou Mãe Cósmica: provavelmente por este motivo, os homens eram excluídos do cerimonial. As mais antigas noções de criação se originavam da idéia básica do nascimento, que consistia na única origem possível das coisas e esta condição prévia do caos primordial foi extraída diretamente da teoria arcaica de que o útero cheio de sangue era capaz de criar magicamente a prole. Acreditava-se que a partir do sangue divino do útero e através de um movimento, dança ou ritmo cardíaco, que agitasse este sangue, surgissem os "frutos", a própria maternidade. Essa é uma das razões pelas quais as danças das mulheres primitivas eram repletas em movimentos pélvicos e abdominais.

Danseuses au bord du Nil. Louis-François Cassas - 1784-1785

As manifestações primitivas, cujos movimentos eram bem diferentes dos atualmente executados, tiveram passagem pelo Antigo Egito, Babilônia, Mesopotâmia, Índia, Pérsia e Grécia, tendo como objetivo através ritos religiosos, o preparo de mulheres para se tornarem mães.

Evolução técnica: aspectos gerais


Tecnicamente, os movimentos são marcados pelas ondulações abdominais, de quadril e tronco isoladas ou combinadas, ondulações de braços e mãos, tremidos e batidas de quadril (shimmies), entre outros. Segundo a pesquisadora norte-americana Morroco, as ondulações abdominais consistem na imitação das contrações do parto: tribos do interior do Marrocos realizam ainda hoje, rituais de nascimento, em que as mulheres se reúnem em torno da parturiente com as mãos unidas, e cantando, realizam as ondulações abdominais a fim de estimular e apoiar a futura mãe a ter um parto saudável, sendo que a futura mãe fica de pé, e realiza também os movimentos das ondulações com a coluna. Estas mulheres são assim treinadas desde pequenas, através de danças muito semelhantes à Dança do Ventre.


Ao longo dos anos, sofreu modificações diversas, inclusive com a inclusão dos movimentos do ballet clássico russo em 1930.


Dentre os estilos mais estudados estão os estilos das escolas:



  • Egípcia: manifestações sutis de quadril, domínio de tremidos, deslocamentos simplificados adaptados do Ballet Clássico, movimentos de braços e mãos simplificados;




  • Norte-americana: manifestações mais intensas de quadril, deslocamentos amplamente elaborados, movimentos do Jazz, utilização de véus em profusão, movimentos de mãos e braços mais bem explorados;




  • Libanesa: com shimmies mais amplos e informais, seguidos de deslocamentos muito simplificados.

* ESTILO EGIPCIO:




* ESTILO LIBANÊS:




* ESTILO AMERICANO:




No Brasil a prática revela uma tendência de copiar os detalhes de cada cultura, para fins de estudo e aumento de repertório. O estilo brasileiro tem se revelado ousado, comunicativo, bem-humorado, rico e claro no repertório de movimentos.





Evolução histórica: aspectos gerais

Tendo sido influenciada por diversos grupos étnicos do Oriente, absorveu os regionalismos locais, que lhe atribuíam interpretações com significados regionais. Surgiam desta forma, elementos etnográficos bastante característicos, como nomes diferenciados, geralmente associados à região geográfica em que se encontrava; trajes e acessórios adaptados; regras sobre celebrações e casamentos; elementos musicais criados especialmente para a nova forma; movimentos básicos que modificaram a postura corporal e variações da dança. Nasce então, a Dança Folclórica Árabe.

A dança começou a adquirir o formato atual, a partir de maio de 1798, com a invasão de Napoleão Bonaparte ao Egito, quando recebeu a alcunha Danse du Ventre pelos orientalistas que acompanhavam Napoleão. Porém, durante a ocupação francesa no Cairo, muitas dançarinas fogem para o Ocidente, pois a dança era considerada indecente, o que leva à conclusão de que conforme as manifestações políticas e religiosas de cada época, era reprimida ou cultuada: o Islamismo, o Cristianismo e conquistadores como Napoleão Bonaparte reprimiram a expressão artística da dança por ser considerada provocante e impura.


Neste período, os franceses encontraram duas castas de dançarinas:


Jean Léone Gérôme - Almeh with Pipe 1873
* As Awalim (plural de Almeh), consideradas cultas demais para a época, poetizas, instrumentistas, compositoras e cantoras, cortesãs de luxo da elite dominante, e que fugiram do Cairo assim que os estrangeiros chegaram;

* As Ghawazee (plural de Ghazeya), dançarinas populares, ciganas de origem indiana descendentes dos Sinti, que passavam o tempo entretendo os soldados.


As Ghawazee descobriram nos estrangeiros, clientes em potencial e foram proibidas de se aproximarem das barracas do exército. No entando, a maioria não respeitava as novas normas estabelecidas, e como conseqüência, quatrocentas Ghawazee foram decapitadas e as cabeças foram lançadas ao Nilo.

The Ghawazee of Cairo - D. Roberts

Originalmente a dança possuía um aspecto religioso nos cultos à deusa mãe, não se sabe ao certo como foi a ligação com a idéia da prostituição, mas acredita-se que tudo tenha começado no período de transição do matriarcado para o patriarcado, quando as danças femininas passam a ser vistas como ameaça ao novo domínio político.


A história dá um salto, e em 1834, o governador Mohamed Ali, proíbe as performances femininas no Cairo, por pressões religiosas. Em 1866, a proibição é suspensa e as Ghawazee retornam ao Cairo, pagando taxas ao governo pelas performances.


ALMEH

Almeh (devidamente alimeh, pi. avalim.) um nome árabe, atendendo à classe melhor do cantores e bailarinos públicos no Egipto e por vezes erroneamente aplicado também para as prostitutas menores e bailarinos. Os almehs formam uma classe social separada, vivos em conjunto nas empresas e muitas vezes ganham muito grandes somas por suas músicas, danças e improvisações, que quase sempre são de caráter lascivio. Seus serviços são geralmente requisitados em Banquetes, casamentos e outros festivais.

The Dance Of The Almeh Pintado por: Jean-Léon Gérôme

GHAZEYA

Ciganos de origem indiana descendentes dos Sinti, os ghawazi são uma grande classe inferior, incluindo bailarinos homens e mulheres, que viajam de um lugar para outro e expor nas ruas suas danças, que, como as de almehs, consistam por lascivios movimentos do corpo. Os ghawazee feminino são prostitutas da classe mais baixa; ainda um árabe respeitável pode, sem preconceito, casar com uma delas que abandonou sua profissão.

Ghawazee

Embora as duas classes são similares na lascivia de suas vidas e profissões, uma distinção nítida existe entre o almehs e o ghawazi, a antiga contemporização para as ordens superiores da sociedade, enquanto este último (considerado por muitos efectivamente uma raça distinta dos ciganos) dirigir-se para a população.




* Dança Awalin




* Dança Ghawazee




No início da ocupação britânica em 1882, clubes noturnos com teatros, restaurantes e music halls, já ofereciam os mais diversos tipos de entretenimento.


Taheya Karioca - Hollywood - 1920
O cinema egípcio começa a ser rodado em 1920, e usa o cenário dos night clubs, com cenas da música e da dança regional. Hollywood passa a exercer grande influência na fantasia ocidental sobre o Oriente, modificando os costumes das dançarinas árabes. Surgem bailarinas consagradas, nomes como Nadia Gamal e Taheya Karioca, entre muitos outros ainda hoje estudados pelas praticantes da Dança Oriental. O aspecto cultural da prostituição relacionada à dança passa a ser dicotomizado: criam-se bailarinas para serem estrelas, com estudos sobre dança, ritmos árabes e teatralidade.

No Brasil a dança foi difundida pela mestra síria Shahrazad e mestra Saamira Samia.


A Dança do Ventre, por não ter sido, em origem, uma dança moldada para o palco, não apresenta regulações quanto ao aprendizado. Os critérios de profissionalismo são subjetivos (PRESTEM BEM ATENÇÃO NISSO-n. a.), tanto no ocidente quanto nos países árabes, embora já comecem a ser discutidos no Brasil.


Na passagem para o formato de palco, determinados elementos cênicos foram incorporados, principalmente no Ocidente:


* Espada: A origem é nebulosa e não necessariamente atribuída á cultura egípcia ou árabe, sendo explicada por várias lendas e suposições. Chamada no Oriente de Raqs al Saif.
- O que é certo, porém, é que a bailarina que deseja dançar com a espada, precisa demonstrar calma e confiança ao equilibra-la em diversas partes do corpo;
- Pontos de equilíbrio mais comuns: cabeça, queixo, ombro, quadril e coxa;
- Também é considerado um sinal de técnica executar movimentos de solo durante a música;


* Punhal: Variação da dança com a espada, também sem registro de uso nos países árabes.
- O desafio para a bailarina nesta dança não é a demonstração de técnica, mas sim a de sentimentos;


* Véus: Ao contrário do que se pensa, é uma dança de origem ocidental norte-americana, tendo sido, portanto, criada há pouco tempo, ao contrário das danças folclóricas.
- Hoje é uma dança extremamente popular, e mesmo os leigos na Dança do Ventre costumam entende-la e apreciá-la.





Saber Dance in a Café - Jean Lèon Geròme












DANÇAS FOLCLÓRICAS


* Candelabro: Elemento original egípcio, o candelabro era utilizado no cortejo de casamento, para iluminar a passagem dos noivos e dos convidados. Dança-se, atualmente, como uma representação deste rito social, utilizando o ritmo zaffa. Chama-se originalmente Raqs al Shammadan.


* Khaligi: Dança genérica dos países do golfo pérsico. É caracterizada pelo uso de uma bata longa e fluida e por intenso uso dos cabelos. Caracteriza-se por uma atmosfera de união familiar, ou simplesmente fraterna entre as mulheres presentes. Dança-se com ritmos do golfo, principalmente o soudi. Chama-se originalmente Raqs al Nash'ar.


* Jarro: Representa o trajeto das mulheres em busca da água. Marcada também pelo equilíbrio. Chama-se originalmente Raqs al Balas.


* Dança do Bastão / Bengala: Dança do sul do Egito, podendo ser dançada com o bastão (no ocidente, bengala).  Chama-se originalmente Tahteb (Bastão Masculino) e Raqs al Assaya (bastão ou bengala femininos).


* Hagallah: Originária de Marsa Matruh, na fronteira com o deserto líbio.




* Dança do Candelabro (Raqs al Shamadan):






* Khaliji (Raqs al Nash'ar)






* Dança do Jarro (Raqs al Balas):






* Dança do Bastão / Bengala (Tahtib e Raqs al Assaya):









Samia Gamal & Farid - Tahteb


* Al Hagalla:






As danças folclóricas normalmente retratam os costumes ou rituais de certa região de e por isso são utilizadas roupas diferentes das de dança do ventre clássica.


* A dança com a cobra é considerada ato circense - a cobra era considerada sagrada no Antigo Egito e por isso algumas bailarinas fazem alusão nas performances - mas não é considerada representativa da dança.


(N.a. - Era comum na antiguidade o uso de animais para a maioria dos espetáculos teatrais de toda ordem, principalmente das tribos africanas. Esse costume se manteve até a queda do Império Romano)




Finalizando


Ainda há muitas danças, consideradas dentro do contexto Raqs al Sharq que não foi tratado nessa matéria, como a DANÇA DAS FLORES e a DANÇA DAS MOEDAS, porém as estudaremos adiante.


Também trataremos em tópico próprio outro assunto muito importante, que é o ANDALUZ, FLAMENCO ÁRABE e a DANÇA HISPANO-ÁRABE (cigana). Alguns consideram fusões (como eu p. ex.) e/ou folclore estrangeiro, porém eu parto da premissa de que, se é oriundo dos costumes e influência artística dos povos árabes, faz parte do contexto cultural por influência de imigração, mesmo que não desenvolvido no Oriente Médio.


OBS.:Como fiz considerações pessoais ao artigo, agradeço imensamente a colaboração de bailarinas, professoras e alunas com mais experiência de estudo teórico q eu em corrigir qualquer discrepância ou equivoco de minhas citações, com as devidas fontes de referência para estudo.

FONTES:
* ATON, Merit. Dança do Ventre – Dança do Coração. São Paulo: Tempos, 1996.
* BUONAVENTURA, Wendy. Serpent of Nile: Women and Dance in the Arab World. London. Saqi Books 1989.
* BURKERT, Walter. Antigos Cultos de Mistério. São Paulo: Palas Athena; 1995.
* MONTET, Pierre. O Egito no Templo de Ramsés. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
* PENNA, Lucy. Dance e Recrie o Mundo. São Paulo: Ed. Summus, 1997.
* PORTINARI, Maribel. História da Dança. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1989.
* WOSIEN, Marie Gabrielle. Danças Sagradas. Madri: Edições Del Prado, 1997.
* CENCI, Cláudia. História da Dança do Ventre. In: Dança do Ventre [monografia de CD ROM].